Cultura Caipira

  

Origens

 

            O termo Caipira vem do tupi Ka'apir ou Kaa - pira, que significa "cortador de mato". Este nome foi dado pelos  indígenas guaianás do interior do estado de São Paulo, no Brasil, aos colonizadores brancos, caboclos, mulatos e negros.

            Segundo Ribeiro (1995), o caipira originou-se da miscigenação entre os colonos portugueses, índios e  alguns negros que a eles se juntaram. Ele emerge na região Sudeste do Brasil; primordialmente, no atual Estado de São Paulo, de onde se expande para o Centro-Oeste através das bandeiras. Após a derrocada da mineração, no final do século XVIII, as populações que se concentravam nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso se dispersam e retomam o modo de vida rústico da antiga população paulista, compondo a cultura caipira.

 

Dialeto caipira

 

De acordo com Amaral (1981) [1920], o dialeto do caipira forjou-se a partir dos elementos do tupi, e de outras línguas, entre elas a portuguesa, a castelhana e, fundamentalmente, o português arcaico dos séculos XV e XVI, deste modo, esta longe de ser uma forma “errada” de fazer uso das palavras.

Linhares (2004) afirma que, como um dialeto, a linguagem caipira adquire certa autonomia em relação à  língua portuguesa e, dessa maneira, passa a ter suas razões próprias, de acordo com determinados aspectos geográficos, sociais e culturais.

A seguir há alguns fenômenos listados por Linhares que particularizam o dialeto capira:

 

1.   Apócope -  é a supressão de um fonema ou sílaba quaisquer no final de um vocábulo.

 

O que eu faço no meu dia’dia é levantá cedo, tirá leite; levanto de madrugada, tem essa vantage (...)”.  “(...) nóis vamo sempre lá em Mossâmede (...)”. No caso, foram apocopados o r, em levantar e tirar; o m, em vantagem; e o s, em Mossâmedes.

 

2.   Síncope -  é a supressão de um ou mais fonemas quaisquer no meio de um vocábulo.

 

“(...) faço janta na parte da tarde e é o dia intero esse serviço.” No caso, houve supressão de fonema intermediário;  aqui, a síncope foi caracterizada suprimindo-se o fonema correspondente à vogal i.

 

3.   Aférese - é a supressão de um ou mais fonemas quaisquer no início de um vocábulo. Sinalefa -  é a junção de duas sílabas ou vocábulos em um só.

 

“(...) eu num güento mexê com enxada (...)”.  “(...) quando dá quato hora começa o batuto traveiz (...)”. Nos casos, güento e traveiz, a aférese ocorre, respectivamente, com as supressões da letra a e  do ditongo ou no início dos vocábulos;  no último caso, ocorre ainda a  junção da sílaba tra ao vocábulo vez, o que indica não somente aférese, mas também sinalefa.

 

4.   Elisão -  é a supressão de uma ou mais vogais átonas do final de um vocábulo, quando, logo em seguida, há outro vocábulo iniciado por uma vogal tônica.

 

E o serviço q’eu faço mais pesado é zelá do meu gado (...)”.  Até un’hora dessa eu faço tudo isso. Agora, un’hora dessa, é hora d’eu tirá uma forguinha (...).” Nos casos, q’eu, un’hora, e d’eu, ocorrem, respectivamente, elisão das vogais átonas ue, a, e e, havendo, em seguida, a conseqüente junção dos termos ou sinalefa.

 

5.   omissão da concordância de número -  “(...) cedo nóis já sortô as vaca, né.”  “(...) e lá é onde nóis diverte mais (...)”.

 

6.   substituição de fonemas -  “(...)num güento nem amolá uma foice (...)”.  “(...) é hora d’eu tirá uma forguinha (...)”.   “Bom, aqui sempre nos dumingo, eu vô na casa de uma vizinha que tem aqui perto (...)”.  “(...) Passiá, nóis vamo sempre lá em Mossâmede (...)”. Foram substituídos, portanto, os respectivos fonemas: ão por uml por ro por u e, finalmente, é por i.

 

7.   omissão de fonemas -  “Na parte da tarde eu tô torrano muito porvilho (...)”. “(...) às vez tá passano um filme assim q’eu interesso (...)”.  “(...) arrumo café da manhã, águo a horta, lavo vasia (...)”.  Nos dois primeiros casos foram suprimidos o fonema correspondente à letra d, já no último caso foi suprimido o fonema correspondente ao dígrafo lh.

 

8.   acréscimo de fonema por ditongação - “(...) lá, às veiz tá passano um filme assim q’eu interesso(...)”. “(...) e lá é onde nóis diverte mais (...)”. Nos dois casos, as terminações vocálicas seguidas de z ou s foram acrescidas pelo fonema correspondente à letra i, resultando, assim, em ditongos.

 

Para Marcos Bagno (2001), do ponto de vista da lingüistica não é possível dizer que estas formas destacadas são incorretas. Pois, para ele, o problema é que existe uma redução da língua à gramática normativa (que seria apenas fundamentos específicos de aplicação da língua conforme um determinado padrão, entre vários outros possíveis e diferentes, mas nem por isso errôneos). Deste modo, dizer que o caipira fala errado seria um equivoco. Para  o autor, mesmo do ponto de vista da gramática, muitos casos que são tidos como erros e desvios são questionáveis, pois todos eles têm um padrão, uma certa coerência, e uma explicação científica.

 

Culinária

 

            Nos primórdios a comida do caipira era feita no fogo-de-chão na trempe, o fogão dos tropeiros, onde as panelas ficavam apoiadas em pedras em formato de triângulo ou penduradas em uma armação de três varas em estilo tripé por cima do fogo e que podiam ser de ferro ou de pau verde, e às vezes no chamado tucuruva, um fogão improvisado no meio do cupinzeiro, com o passar dos tempos ganhou altura e formato no que é hoje o fogão a lenha, onde normalmente é feita a maioria dos pratos. Os tropeiros influenciaram muito na disseminação da culinária caipira pelo Brasil.

            Entre os grandes pratos da cozinha caipira figuram:

 

·         Arroz ao Forno com Calabresa

·         Arroz à Carreteiro

·         Arroz de Forno

·         Arroz Enformado

·         Arroz Jardineira

·         Barreado

·         Boi na Birita

·         Bolo de Tapioca

·         Carne Seca Acebolada

·         Carne Seca na Moranga

·         Carne Assada de Panela

·         Costeleta de Pacu

·         Costeleta de Porco

·         Escondidinho

·         Filé de Peixe na Folha de Bananeira

·         Filé Mignon ao Molho de Gorgonzola

·         Frango Crocante

·         Frango Especial

·         Frango Mafioso

·         Frango na Cerveja

·         Galinha de Cabidela

·         Gratinado de Couve Flor com Linguiça

·         Leitão à Pururuca

·         Lombo na Cerveja

·         Milho Surpresa

·         Moqueca Capixaba

·         Nhoque Dona Tita

·         Pão de Abóbora

·         Pão de Cebola

·         Pernil de Carneiro

·         Polenta com Molho

·         Rocambole Salgado

·         Rosquinha de Cerveja

·         Salada de Feijão Branco

·         Sopa Paraguaia

·         Torta de Legumes

·         Torta Salgada

·         Vaca Atolada

·         Xinxim de Galinha

·         Quentão

·         Caipirinha

·         Cachaça

 

 

 

Causos

 

            Narrar “causos” é característico de um caipira. Os “causos” são historietas contadas através de pai para filho durante séculos, nelas os personagens também são caipiras.

            A seguir temos dois exemplos de causos capira.

 

1º Causo

 

Num certo dia, um empresário viajava pelo interior. Ao ver um peão tocando umas vacas, parou para lhe fazer algumas perguntas:
- Acha que você poderia me passar umas informações?
- Claro, sô!
- As vacas dão muito leite?
- Qual que o senhor quer saber: as maiáda ou as marrom?
- Pode ser as malhadas.
- Dá uns 12 litro por dia!
- E as marrons?
- Também uns 12 litro por dia!
O empresário pensou um pouco e logo tornou a perguntar:
- Elas comem o que?
- Qual? As maiáda ou as marrom?
- Sei lá, pode ser as marrons!
- As marrom come pasto e sal.
- Hum! E as malhadas?
- Também come pasto e sal!
O empresário, sem conseguir esconder a irritação:
- Escuta aqui, meu amigo! Por que toda vez que eu te pergunto alguma coisa sobre as vacas você me diz se quero saber das malhadas ou das marrons, sendo que é tudo a mesma resposta?
E o matuto responde:
- É que as maiáda são minha!
- E as marrons?
- Também!

 

Fonte https://risosolto.blogspot.com/2007/11/causos-de-caipira-1.html

 

2º Causo - A Árvore que Dá Caneta

O seu Gonçalves recebeu o sobrinho para uma temporada de férias no sítio. Era sempre assim, quando entrava de férias o sobrinho Eurico vinha para o interior.
Andando pelos campos, sabe como é estudante em férias, onde o tio ia ele ia atrás. Tinham ido levar sal para um gado que ficava num pasto distante da sede da propriedade. Era de tarde, e para aproveitar bem a presença no campo, que é sempre agradável, eles foram e estavam voltando a pé.
Desde que deixaram o pasto, o sobrinho deu de testar a inteligência do tio. O tio caía em todas. Assuntos de física quântica, física não sei das quânticas, pressão tromosférica, urânio, bomba atômica. E o sobrinho ia tirando uma com o tio em todas. O tio só de rabo de olho nele. E o sobrinho perguntava se o tio sabia o que era cálcio, e o tio não sabia, e era aquela gozação.

Passando próximos de uma árvore bem folhada e frondosa, o tio parou e falou:
-Sobrim, ta veno essa arve?
-Estou sim, tio.
-Essa arve dá caneta.
-Ah, tio, é invenção sua!
-To ti falano, essa arve dá caneta.
-Não acredito!
-To te falano. U teu tio ia minti pro ce! Vai lá di baxo e conferi. É qui já foi u tempo de caneta, mais as veis o ce consegue vê arguma qui num caiu.
O sobrinho foi até embaixo da árvore. Deu certo que era uma amoreira em fim de tempo de amora, tinha só umas espalhadas aqui e ali. Deu certo que tinha um sanhaço num galho acima, e sabe como é, deu uma soltada, sabe como é passarinho, não sabe segurar vontade. Tpéf! Uma daquelas borradas de acertar em cheio. Bem no ombro do sobrinho. Uma roda assim azulada da fermentação das amoras que ele tinha comido.
O seu Gonçalves não agüentou, já logo gritou:
-Ah meu sobrinho, acontece de arguma tá sem tampa!

 

Fonte: https://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=9637

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

AMARAL, Amadeu. O dialeto caipira. São Paulo: Hucitec; Brasília: INL-MEC, 1981 [1920].

 

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2001.

 

LINHARES, A. A. C. - Linguagem e identidade cultural caipira no município de Mossâmedes: por uma nova concepção acerca da linguagem caipira. Revista da UFG, Vol. 7, No. 01, junho 2004

 

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil.  São Paulo: Companhia das Letras, 1995.