Estereótipos
O que é estereótipo?
“Ideia, conceito ou modelo que se estabelece como padrão, preconceito, comportamento ou discurso caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, anônimo ou impessoal, e desprovidas de originalidade e da adaptação à situação presente.” Disponível em: https://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=estereótipo.
Os pensamentos dos viajantes que por aqui passaram na época da colonização, podem ser os primeiros a colocar estereótipos sobre o caipira, vejam:
“Parece que esses infelizes tinham muita preguiça para o trabalho, só cultivando o estritamente necessário à satisfação das próprias necessidades, e a seca do ano anterior levou ao cúmulo a sua miséria”. (Saint-Hilaire 1954 apud Setubal p.34 2005). Em contrapartida, o viajante descreveu os senhores de terra: "são homens de nobreza de estilo, coragem, firmeza e franqueza de espírito." (SETUBAL, p. 34, 2005)
Outro olhar preconceituoso, trata-se do olhar europeu:
“Neste país, os pretos representam o papel principal; acho que no fundo são mais senhores do que escravos dos brasileiros. Todo trabalho é realizado pelos pretos, toda riqueza é adquirida por mãos negras, porque o brasileiro não trabalha e, quando é pobre, prefere viver como parasita na casa dos parentes e de amigos ricos em vez de procurar ocupação honesta (...)Ele imita servilmente o branco e trabalha o menos que pode; aqui, no próprio local e diante da amenidade dessa natureza, é que se pode avaliar quanto é diminuto o esforço dessa gente de inacreditável indolência.” (BINZER, 1994 apud SETUBAL p. 38-39, 2005)
Brasil Séc. XIX a ideia de progresso e modernidade é copiada como padrão pela elite paulista e ignorando pensamentos diferentes destruindo assim o patrimônio cultural paulista.
Início do séc. XX, o ideal civilizatório: brancos, republicanos e citadinos de um lado e do outro os sem civilização: excluídos, rebeldes, negros, imigrantes e trabalhadores da terra ou quem não reconhecesse a importância da civilização.
1918: Nascimento do Jeca Tatu e a cristalização do estereótipo do caipira. Monteiro Lobato, impulsionado pelas questões civilizatórias escreveu em seu artigo Urupês:

FONTE: https://fotos.sapo.pt/joedias/fotos/?uid=qwLK0g8nI0Gg7y6zoCzS
“A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro como o “Argas” o é aos galinheiros ou o “Sarcoptes mutans” à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do “Porrigo decalvans”, o parasita do couro cabeludo produtor da "pelada", pois que onde ele assiste se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, nua e descalvada. (...) Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se” (LOBATO, p. 113, 1994).
O que ficou:
Chico Bento de Maurício de Sousa, 1961:
Chico Bento: “Chico Bento é um garoto de uns cinco anos de idade, que gosta de brincar e tem preguiça de ir à escola. Tem uma namorada e uma família harmoniosa. É um típico caipira brasileiro, andando descalço, com chapéu de palha e vivendo na roça. Os diálogos de Chico Bento, por exemplo, reproduzem o dialeto caipira, com expressões próprias dessa variante linguística e com pronúncia diferenciada.” (TORRECILLAS, p. 4, 2008). Comumente, Chico Bento é caracterizado como um personagem indolente e preguiçoso.

Fonte: (TORRECILLAS, 2008)
Atualmente:
As músicas caipiras de antigamente, hoje são sertanejas, country. Seria mais um preconceito? O caipira ainda é ‘sinônimo’ de bobo, preguiço, pobre, acanhado entre outros preconceitos que são distribuído geralmente por quem não viveu e nem conhece a sua história. A história do homem simples, desbravador do interior paulista e vítima da sua própria construção histórica e política.
Referências:
LOBATO, Monteiro. Urupês. 37. ed. Revisada. São Paulo: Brasiliense, 1994.
SETUBAL, Maria Alice. Vivências Caipiras: Pluralidade cultural e diferentes temporalidades na terra paulista. São Paulo: Cenpec/Imprensaoficial, 2005.
TORRECILLAS, Maria Vera C. O estereótipo do caipira brasileiro na literatura, nos quadrinhos e na pintura. In: Cadernos de Pós-Graduação em Letras, vol. 8, nº 1, 2008, disponível em <https://www.mackenzie.br/fileadmin/Pos_Graduacao/Doutorado/Letras/Cadernos/Volume_8/8-O_ESTEREOTIPO_DO_CAIPIRA_BRASILEIRO_NA_LITERATURA__NOS_QUADRINHOS_E_NA_PINTURA.pdf>. Acesso em: 19 jun. 2011.

